1
Grande corda entre aqui e ontem, entre o “se” e “enfim”
Espessa e delicada, bambeia, dançando no vazio
Malabares nas mãos, pés fora do chão, estranho serafim
Leva-me a instáveis mundos, daqui à li, sem brio
Oscilando, vivendo, rodopiando, temendo, eu viajo
Procurando o fim da linha, em desalinho, te vejo
Sou eu que vou lá, no meio do caminho, para frente
Delimitado pela sombra e luz, tropeçando descrente
2
Dividido, assim é o dia dos malditos a uma esperança
Manhãs de jubilo celeste, anoitecer dos condenados
Entre lanças de tormento e de ouro bento, andança
Olhar pupilas doces, mesma persona, pares opacos
Conta pra todos teu medo, encara a cascata de pedras
Aconchega-te no ombro e espera a ferroada venenosa
Curva em sono ao amor, acorda sem saber quem eras
Persegue ideal bem-fazer, enforca verdade indecorosa
Risca do bom livro todos os verbos, recita com ardor
Rubor pobre, estripa o coração, faça-o como diamante
Está a tropeçar nas vontades e verdades, tolo pensador
Arranca em rito os sentidos, nenhuma esperança adiante
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